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Rondônia, 34 Anos

Publicado Afotorm - 05/01/2016

04 de Janeiro 2016, comemoramos os 34 anos de criação do Estado de Rondônia


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Camponeses da Gleba Prosperidade [município de Cacoal], em 1979. Rondônia ainda era Território Federal. Foto: Montezuma Cruz.

Os 34 anos de criação do Estado de Rondônia são apenas uma faceta da recente ocupação desta parte da Amazônia Ocidental Brasileira. "O tempo todo vivemos fases migratórias desde a colonização portuguesa, dos primeiros núcleos de povoamento até o início da construção das hidrelétricas do rio Madeira", explica o professor de História da Universidade Federal de Rondônia, Marco Antônio Teixeira.
O Exército Brasileiro está presente na região desde os tempos em que quase toda extensão de Rondônia fazia parte do Estado de Mato Grosso. Pelotões e destacamentos de fronteira em Porto Velho, Guajará-Mirim e Forte Príncipe da Beira guarneciam a região na década de 1930, no auge do ciclo da borracha. Hoje o estado tem 237 mil Km².
De acordo com o professor Teixeira, a visão crítica de Aluízio Ferreira assegurou a continuidade do povoamento. "A presença militar se tornou permanente, inteligente e decisiva", opina.
Para melhor compreensão das distintas fases, ele menciona o período colonial, quando o governador da Província de Matto Grosso [grafia da época], Antonio Rolim de Moura fracassou na tentativa de trazer açorianos, madeirenses e cabo-verdianos.

A região conhecida por Inferno da América, a mais insalubre da Terra, impediu essa primeira grande corrente migratória. Mesmo assim, buscava-se o estímulo ao assentamento de pessoas "com penas administrativas e penas de morte".
"Significa dizer que a região mato-grossense [até Santo Antônio do Rio Madeira] e amazonense [a partir dali] foi um presídio a céu aberto", assinala o professor. Essa ideia de ocupação prevaleceu na sobrevida do Forte Príncipe da Beira durante o período imperial.

 

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Crianças do Acampamento Canaã festejam o milho colhido pelos pais. Foto: Resistência Camponesa.

As portas à migração por rodovia foram abertas pelo primeiro governador, coronel Aluízio Ferreira. Por iniciativa dele, abriram-se os primeiros 20 quilômetros de estrada no sentido Capital-Ariquemes, então, apenas um posto telegráfico na floresta. "Ele aproveitou bem o trabalho do marechal Cândido Rondon, de quem era amigo", observa o professor.
A instalação do 5º Batalhão de Engenharia de Construção (BEC) em Porto Velho, em 1966, possibilitou a manutenção e a trafegabilidade da BR-364, cujo asfalto só fora inaugurado em meados dos anos 1980.
Foi o 5º BEC que desativou a Estrada de Ferro Madeira-Mamoré, estabelecendo a ligação rodoviária entre Porto Velho e Guajará-Mirim.

 


MÃO DE OBRA ESCRAVA E DESPOVOAMENTO
Bons resultados da mineração do ouro no século 18 e a presença militar completaram-se com o uso abundante da mão de obra escrava de origem africana.
"Diferentemente do restante da Amazônia, aqui no Guaporé a mão de obra indígena teve utilização restrita, porque em áreas de fronteira a rebeldia possibilitaria uma aliança entre índios e espanhóis, o que já havia ocorrido durante as missões jesuíticas do rio Itonamas [afluente do rio Guaporé]", analisa Teixeira. Na região se deu a maior vitória portuguesa na batalha da ocupação.

 

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O repórter com antigos guerreiros e o pajé do Povo Suruí.

Foto: Joaquim Cunha da Silva.

No século 19, os brancos abandonaram a região, nela permanecendo apenas os negros. Temendo o maculo, governadores de Mato Grosso evitavam Vila Bela da Santíssima Trindade e a região do Guaporé. Um deles, João de Albuquerque de Melo Pereira e Cáceres, morrera vítima dessa doença, conjugada com a malária.
"Por causa das doenças, a primeira aula de medicina do País se deu em Vila Bela. Um médico francês refugiado em Pedras Negras atendia as vítimas permanentemente", conta o professor.
A monção fluvial do porto de Belém (PA) a Vila Bela levava dois anos, de ida e volta. Nos trechos encachoeirados, os homens descarregavam e recalafetavam batelões, passando por picadas. Teotônio, Jirau e Caldeirão do Inferno eram os piores trechos desse percurso.
O governo imperial tentou, sem êxito, outros núcleos de povoamento, que só dariam certo na segunda metade do século 19. O Vale do Madeira se tornava propriedade de grandes seringalistas bolivianos, e eles usavam a força indígena das regiões do Beni e Pando [Amazônia Boliviana].
AYACUCHO E PETRÓPOLIS
"O Tratado de Ayacucho restringia o fluxo, mas em 1870 a construção da Estrada de Ferro Madeira-Mamoré deu início a novo surto migratório, conforme narra o historiador americano Neville Craig no livro EFMM – História trágica de uma expedição".
E aí vieram os nordestinos para esta parte da Amazônia Ocidental, entre 1870 e 1880. Segundo estudos do Barão de Marajó, nessa década estimavam-se em aproximadamente cinco mil os moradores da região do Madeira, que já dispunha de serviço regular de navegação. "O rio é o grande condutor da migração", comenta Teixeira.
Viajando pelo litoral, eles desembarcavam na Baía de Guajará em Belém e de lá navegavam em navios insalubres até Santo Antônio do Rio Madeira, onde os aguardavam diversas doenças infectocontagiosas.
A história é sabida: eles enfrentaram o beribéri [inchaço no pescoço], a malária, e se valiam de frutas cítricas para controlar o bócio, acrescidas de iodo e sal.
A assinatura do Tratado de Petrópolis em 1903 reforçou a necessidade de povoamento. Em 1905, o engenheiro carioca Joaquim Catramby venceu a licitação, repassando os direitos a Percival Farqhuar, que em 1907 mandou fundar Porto Velho.

 

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Cacoal empoeirada ainda em tempos territoriais, quando o município recebia muitos migrantes paranaenses, mineiros e capixabas.

Foto: Marcos Santilli, em 1978.

A essa altura, 22 mil trabalhadores estavam em Porto Velho. Eles foram recrutados em 25 países. Eram antilhanos, barbadianos, brasileiros, chineses, cubanos, granadenses, espanhóis, indianos, italianos, libaneses, mexicanos, norte-americanos, noruegueses, poloneses, porta-riquenhos, poloneses, portugueses, russos, sírios e tobaguenses.
O declínio da borracha ocorreu em 1913, havendo novo refluxo no povoamento. Dos anos 1970 à recente chegada de haitianos, vítimas do terremoto de 2010, a migração para Rondônia não parou mais.
Estima-se que pelo menos 80 mil pessoas chegaram ao estado, atraídas por vagas nos canteiros de obras das hidrelétricas de Jirau e Santo Antônio. "Entre aquele o ciclo ferroviário e as hidrelétricas temos um intervalo de cem anos", assinala o professor.

"O povoamento iniciado com ouro e borracha passou pelas drogas do sertão e atualmente a borracha é a energia elétrica vendida para outras regiões brasileiras; sem a eletricidade produzida na Amazônia, o País fica às escuras", analisa Teixeira. Mas ele cobra: "É preciso reconhecimento, porque Rondônia ainda vive o capitalismo periférico".

 

 

Por MONTEZUMA CRUZ

Fonte:Facebook Montezuma Cruz