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O preço do sangue

Publicado Afotorm - 06/07/2017

 

É inegável que no período dos governos militares houve alguns avanços, mas qual foi o preço que se teve que pagar? Hoje sabemos que os avanços dos anos de chumbo ocorreram a um custo social e humano muito alto: Vidas foram ceifadas!!! por isso a indagação: esse preço paga o progresso?
O que o governo militar usava para se impor sobre a população? Dois instrumentos: a repressão e o convencimento ideológico.
Inicialmente foi instituída a repressão pela qual o poder golpeou a democracia. Os golpistas refizeram a constituição para instalar o autoritarismo e legitimar a violência. Criaram a ferramenta chamada Ato Institucional (ou simples mente AI) pela qual muitos diritos civis foram extintos. A partir desses AI qualquer suspeito podia ser preso e torturado. Agentes do DOPS e DOI-CODI transformaram-se em agentes da repressão.
A mão demolidora desses Atos Institucionais impôs várias arbitrariedades. O AI 5, por exemplo, fechou o Congresso alegando que os parlamentares eram opositores ao sistema. Com isso, o presidente passou a ter direito de fazer leis e cassar mandato de políticos, decretar estado de sítio...
Além de tudo isso, o governo militar se utilizou de instrumentos ideológicos: a propaganda oficial dizia: "Brasil: ame-o ou deixe-o!". Redes de TV e muitos artistas elogiavam ao sistema, dando a impressão de que tudo estava bem, como na música que dizia: "Jovens tardes de domingo, quantas alegrias..."; ou a outra: "Este é um país que vai pra frente, oh! oh! oh! De uma gente amiga e tão contente oh! oh! oh!". Até o futebol foi usado para anestesiar as consciências. Enquanto multidões eram distraídas nos estádios cidadãos eram torturados e mortos nos porões da ditadura...
Mas não foi só repressão. Houve reação. Perseguida, mas corajosa. Jovens estudantes, professores e artistas posicionaram-se contra os horrores da ditadura. Pode-se até falar em "resistência cultural" que se desenvolveu na noite da ditadura.
Podemos lembrar, entre outros, de Elis Regina, Rita Lee e Raul Seixas cantando: "eu calço é 37. Meu pai me dá 36. Dói, mas no dia seguinte eu aperto meu pé outra vez" e também: "Hei, anos 80, charrete que perdeu o condutor". Também se pode falar em Chico Buarque: "Apesar de você, amanhã há de ser, outro dia. Eu pergunto a você onde vai se esconder da enorme euforia? Como vai proibir quando o galo insistir em cantar?". Todos convocavam a população a reagir contra a ditadura.
O fato é que, se por um lado a ditadura tentou sufocar a consciência da juventude, por outro lado muita gente resistiu. Pagaram o preço do sangue, mas houve reação.
Triste é ver que esse preço não surtiu os efeitos desejados: Hoje o povo é excluído, explorado e está descrente na possibilidade de mudanças. Mais triste, ainda, é ver que nos dias atuais, as instituições se corromperam e o povo, massa de manobra, permanece alheio e indiferente, vendo "a banda passar" tocando coisas de horror! Mas acabou aquela ditadura.
Hoje as coisas pioraram: dia após dia os sinais e denúncias de corrupção povoam os meios de comunicação e a população permanece inerte em sua insatisfação. Poderia haver mudanças? Sim, caso houvesse gente disposta a colocar um ponto final no sistema de morte. Mas, para isso ocorrer é necessário superar a repressão ideológica que mantém o povo na inercia. São os frutos de duas décadas de castração ditatorial.
Se não fosse crime poderíamos convocar os insatisfeitos para nos mobilizarmos na revolta. Mas o incitamento à violência nos é proibido, por isso não se pode convocar a população a sair da insatisfação e se empenhar na solução. Se isso nos fosse permitido, mesmo assim haveria um preço: o sangue pelo país!


Neri de Paula Carneiro
Mestre em educação, filósofo, teólogo, historiador
Rolim de Moura – RO