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'Histórias da sexualidade' tem classificação indicativa que impede entrada de menores de 18 anos

Publicado Afotorm - 19/10/2017

Com segurança reforçada, Masp abre mostra apenas para maiores de idade

Foto: Assessoria

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"Dia de Ano Novo", obra de 1835 do artista japonês Keisai Eisen

Foto: Divulgação

SÃO PAULO — Proibida para menores de 18 anos, a exposição "Histórias da sexualidade", que tem abertura hoje para convidados, no Museu de Arte de São Paulo, não permitirá a entrada de crianças e adolescentes, nem acompanhados pelos pais ou responsáveis — como manda o Ministério da Justiça. A decisão, inédita na história do museu, deve-se a um parecer do departamento jurídico, que recomendou a classificação mais rigorosa em vista da presença de sexo explícito, linguagem imprópria e violência entre as mais de 300 obras expostas.

O rigor na autoclassificação de "Histórias da sexualidade" vem na esteira das polêmicas envolvendo a mostra "Queermuseum", em Porto Alegre, e a performance "La bête", em que o coreógrafo Wagner Schwartz se apresentou nu no Museu de Arte Moderna de São Paulo. Curadora da exposição do Masp ao lado de Adriano Pedrosa, Pablo León de la Barra e Camila Bechelany, a historiadora Lilia Schwarcz diz que as opções eram vetar a entrada de menores de 18 anos ou promover cortes em um trabalho que remonta a 2015 e incluiu pesquisa de obras, artistas e núcleos relacionados ao tema, além de dois seminários internacionais.

— Estávamos com o trabalho todo pronto, as obras de fora encomendadas e o catálogo fechado — diz Lilia, enquanto conduz o repórter pela montagem da exposição.

— Foi uma decisão difícil, mas resolvemos adotá-la para evitar que depois o Ministério Público tomasse uma atitude mais drástica. Agora, é também um ato político, até para que a sociedade se manifeste. Como diz (o filósofo francês Michel) Foucault: "Proibir é incitar".

Dividida em nove núcleos temáticos e não cronológicos, a exposição se espalha por pelo menos três ambientes do Masp. No primeiro andar, estão seções como "Corpos nus", "Performatividades de gênero" e "Jogos sexuais". No primeiro subsolo, está instalada a sala "Políticas do corpo e ativismos". Do acervo do museu, serão expostas obras de Edgard Degas, Maria Auxiliadora da Silva, Pablo Picasso, Paul Gauguin, Suzanne Valadon e Victor Meirelles. Duas obras foram encomendadas: a tela "Trustful surrender", de Hulda Guzmán, e a escultura em papel machê e poliuretano "Venus #freethenipple", de Erika Verzutti.

"Corpos nus", que reúne, entre outras obras, telas clássicas como "A banhista e o cão griffon (Lise à beira do Sena)", de 1870, de Renoir, ao lado de fotografias contemporâneas como "David", de Miguel Angel Rojas, não abre a exposição por acaso. Localizada na entrada do primeiro andar, esse núcleo traz "representações de corpos femininos, feminilizados, corpos masculinos e masculinizados, corpos trans, corpos não binários, de múltiplas formas".

— Não foi uma escolha aleatória — comenta Lilia, diante da porta de vidro do primeiro andar.— Quem subir pela escada para ir ao acervo terá uma ideia do que estamos expondo e, com sorte, vai despertar a curiosidade para o resto.

Pornô como resistência

Além da opção pela classificação mais rigorosa, o Masp adotou também medidas de segurança extras, de acordo com Adriano Pedrosa, que também assina como curador da exposição:

— Tomamos diversas medidas preventivas, que incluem o reforço do time de seguranças e treinamento específico para a equipe de orientadores de público, que fica nas salas expositivas. O Masp respeita as opiniões e eventuais críticas que a mostra pode suscitar, esperamos que eventuais manifestações ocorram de forma madura, pacífica e democrática.

Os protestos que levaram ao fechamento da exposição "Queermuseum" e à abertura de um inquérito por parte do Ministério Público de São Paulo para apurar a aplicação da classificação indicativa no caso do MAM-SP deixaram os museus e institutos da capital paulista em estado de alerta. Na semana passada, funcionários e representantes de várias instituições se reuniram em uma galeria para discutir estratégias para se proteger de manifestações e evitar ser alvo de censura.

Para a pedagoga, educadora sexual e escritora Caroline Arcari, é preciso desfazer a confusão entre nudez e erotização, que dominou o debate público acerca das artes nos últimos tempos.

— A nudez, por si só, pode ser compreendida por crianças a partir dos 10 anos, ou até menores, com a orientação dos responsáveis. Obras que envolvam erotismo, dependendo do seu conteúdo, podem ser trabalhadas com adolescentes. As instituições poderiam oferecer programas específicos para os jovens, para ajudar as famílias a abordar os temas em casa — sugere Caroline, para quem as classificações indicativas de exposições deveriam ser feitas por equipes multidisciplinares e não apenas pelos museus. — Isso poderia evitar boa parte destes ruídos e seria uma forma de trazer a sociedade para o debate.

Integrante do Programa de Pós-Graduação em Artes da Uerj e com experiência também na área de educação, Aldo Victorio Filho acredita que os museus poderiam ter uma atuação mais inclusiva em relação ao público estudantil.

— É uma perda que estudantes menores de 18 anos não possam ter contato com obras como a da exposição, dentro do ambiente mediado de um museu. Mas há um problema anterior, de uma produção de discurso das instituições que localiza as pessoas, principalmente as que vêm da periferia, e não as integra àqueles ambientes — destaca o professor.

Pornografia como resistência

Integrante do Movimento de Arte Pornô, que usou a pornografia como forma de resistência durante a ditadura, entre 1980 e 1982, Eduardo Kac tem imagens da performance que encerrou o projeto expostas no Masp e no Museu de Arte do Rio (MAR), dentro da coletiva "Feito poeira ao vento".

— Na época, o general Figueiredo criou uma cruzada contra a pornografia, articulado com setores conservadores da sociedade que, de tempos em tempos, voltam à tona. Por isso, os artistas devem estar sempre prontos a reagir contra essas investidas — observa Kac, para quem o Masp poderia ter buscado outras soluções. — Fui a uma mostra do Robert Crumb no Museu de Arte Moderna em Paris em que a própria arquitetura permitia o acesso de diferentes tipos de público. As obras com conteúdo menos explícito ficavam nos corredores principais e as mais controversas em salas laterais, devidamente sinalizadas.

Autor de "Gaye com folhas Gu", Ayrson Heráclito diz que, no momento atual, a exposição acaba assumindo um caráter político, ainda que isso não se reflita nas obras:

— Minha obra aborda o universo do sagrado, em que o corpo aparece nu, mas não está nu: está vestido de cutura. O conceito de nudez é extremamente eurocêntrico, não faz sentido para os indígenas brasileiros ou os povos da África pré-colonial.

Para Cildo Meireles, também selecionado para a exposição do Masp, a liberdade de expressão deve ser inviolável por princípio.

— Há muitas coisas por trás destes ataques, como a falta de bom senso, o mínimo de perspectiva de história da arte. É difícil pensar neste tipo de obscurantismo em 2017, gerado por uma articulação reacionária. A arte tem o papel de se opor aos padrões dessas pessoas que estão por trás dessas campanhas.

 

 

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"Moema" (1866), de Victor Meirelles

Foto: Divulgação

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"Angélica acorrentada" (1859), de Jean Auguste Dominique Ingres

Foto: Divulgação

 

 

 

 

 

 

 

 



 

 

 

Fonte: O GLOBO