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Tesouros arqueológicos perdidos em Rondônia e no Acre

Publicado Afotorm - 09/03/2020

Região foi importante para a disseminação de grupos no período "Paleo-índio"

Foto: Assessoria

rolim-de-moura
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Um dos maiores tesouros arqueológicos do Brasil, datado de mais de 12 mil anos, está escondido no interior de Rondônia, na área rural do município de Presidente Médici, distante 410 quilômetros da capital, Porto Velho, às margens da BR 364. Com 1.758 quilômetros quadrados e 24 mil habitantes que sobrevivem da agricultura familiar. Ali, entre rios, morros, matas fechadas e platôs de rochas de arenitos, que serviram como pontos de observação aos homens que viveram na era do "Paleo-índio", o estágio mais primitivo e atrasado dos povos ameríndios.

Em 2011, como jornalista, acompanhei o trabalho coordenado pela arqueóloga, Maria Lucia Franco Pardi, do Instituto do Patrimônio Histórico Nacional (IPHAN) de Brasília que realizou o inventário dos 78 sítios arqueológicos encontrados naquele município. Para arqueóloga, Maria Lucia Franco Pardi, na época, "este em um pedacinho do Brasil que estava sendo descoberto". O trabalho tinha como foco a preservação de um tesouro cultural de valor inestimável, visando evitar futuros impactos que venham destruir este vasto patrimônio.

Na avaliação de outra pesquisadora que fez parte do grupo, Ana Carolina Torres Ramos da Universidade Federal de Pernambuco, "há muita coisa indecifrável nesta região". As pesquisas revelam que por ali passou muita gente. A ocupação pelo homem da América também fez parte deste inventário que ainda não foi descoberto com clareza existindo apenas fortes vestígios dando conta que dali eles seguiram em direção ao que é hoje, o sul da Argentina e Uruguai.

O simbolismo das marcas rupestres
Não é necessário ser arqueólogo, geólogo, antropólogo ou coisa parecida para reconhecer o simbolismo das marcas rupestres deixadas pelos nossos ancestrais nas rochas de Presidente Médici. Os desenhos e configurações geométricas e gráficas revelam um pouco da comunicação social entre os povos que viveram nesta região há milênios. Estes registros possivelmente nunca serão decifrados e ninguém saberá com certeza que tipo de informações eles estavam trocando, se sobre o inimigo, ou reverenciando seus "Deuses", mas sugerem interpretações das mais diversas.
Para o professor de história e pós-graduado em arqueologia da Amazônia, José da Silva Garcia, referindo-se ao município de Presidente Médici, "O que se encontra aqui não foi encontrado em nenhum lugar do mundo em termos de variedades e quantidades". É verdade, as ferramentas encontradas nos 78 sítios, confeccionadas em pedras e argilas, vão desde machados, arados, virotes, pontas de lanças, ponta de flechas, boleadeiras, fragmentos de cerâmica, conhecidas como "panela de índio" e uma urna de acompanhamentos funerários.

O material pesquisado e coletado lá em 2011, ainda carece de datação uma vez que foi somente recolhido o que foi encontrado na superfície. Outros estudos realizados anteriormente pelo arqueólogo Eurico Muller e Solange Calderalli indicam com precisão que entre 4 e 5.500 anos houve ali a presença de grupos pré-históricos.

Por analogia alguns técnicos interpretam que na medida em que outros grupos surgiam na região depois de confrontos violentos, implementava-se a conquista de novos espaços em áreas distantes com os derrotados em lutas sangrentas partindo para conquista de outros locais. Em Presidente Médici, o local era apropriado pela abundância de pesca e caça, também por ser uma área acidentada com rochas e morros adequado para agricultura deles que pelos equipamentos encontrados era avançada.

População dispersa na Amazônia
Betty Meggers, antropóloga norte americana, em seu livro "Amazônia: a Ilusão do paraíso" revela que os povos indígenas dependiam de uma agricultura rudimentar e de pesca para sobrevivência em constantes deslocamentos na Amazônia, gerando uma existência móvel e semi-nômade ocasionando ocupação esparsa do território. Esse fator segundo ela impediu a formação de sociedades com organizações sócios culturais, estagnando os povos da floresta tropical o que os faz se manter no estágio de tribos.

Portanto, a vida do índio amazônico, na opinião dela mudou pouco nos últimos dois mil anos. O mesmo estudo mostra que o povoamento da região Amazônica era constituído de populações pertencentes aos troncos lingüísticos Aruak,Tupi e Karib, Tupinambás, Potiguaras e outros formando um mosaico de povos que falam em 180 línguas distribuídos entre 225 povos.

Calcula-se que quando os Europeus chegaram ao Brasil iniciando a colonização existiam na Amazônia e Centro-Oeste 30 milhões de silvícolas que viviam semi-agrupados. Daquela época até hoje muitas línguas desapareceram, assim seus costumes e tradições.

Quebrando paradigmas e levantando dúvidas
Em 1980 contrapondo-se a maioria das teorias levantadas sobre a presença de silvícolas na Amazônia, surgiram os estudos realizados pela arqueóloga, Ana Roossevelt, bisneta do ex-presidente Franklin Roosevelt, que utilizando tecnologia e metodologia avançada com pesquisas concentradas em diversas regiões do baixo Amazonas ela estabeleceu a presença humana nesta vasta área datada de por volta de 11.500 anos antes de Cristo. Também sugere que por longos tempos a bacia Amazônica era ocupada por diferentes povos indígenas organizados em sociedades hierarquizadas.

Próximo a Rio Branco capital do Acre, no entroncamento da BR 364 com rodovia 317, existem geóglifos que são uma verdadeira obra de arte e engenharia como no município de Presidente Médici em Rondônia. São trincheiras, construídas em solo argilosos de terra firme circundados por muretas e valetas. Foram escavados como pontos de defesa com formatos quadrado e retangular, circular, oval e hexagonal. Nesses sítios arqueológicos lá como aqui ainda existem muitos fragmentos de cerâmica, lâminas de machado, ossos e carvão.

A grande ocorrência desses objetos revela que existia dentro das valetas uma população numerosa. As muretas parecem indicar parte de paliçadas defensivas. De acordo com os estudos de Ana Roosevelt por volta de 800 a 1.300 anos antes de Cristo as sociedades organizadas na Amazônia foram capazes de fazer construções arrojadas de maneira correta.

A título de esclarecimento: tanto em Presidente Médici, como no município de Rio Branco no Acre, todas as evidências da presença destes povos da antiguidade foram registradas somente com objetos recolhidos na superfície, porém os pesquisadores acreditam que no subsolo possam existir verdadeiros cabedais arqueológicos.


 

Por José Luiz Alves
Fonte: DIÁRIO DA AMAZÔNIA